Autismo: entenda o TEA, suas características e como apoiar o desenvolvimento
Abril é o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), um momento importante para ampliar o conhecimento, promover a inclusão e fortalecer o respeito às diferenças. Mais do que um diagnóstico, o autismo é uma forma singular de perceber, sentir e interagir com o mundo. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que impacta, principalmente, a comunicação social e o comportamento, podendo incluir padrões repetitivos e interesses específicos. Trata-se de uma neurodivergência permanente, que se manifesta de formas variadas. Por isso, é compreendido como um espectro.
Neurodiversidade: reconhecer as diferenças
O conceito de neurodiversidade parte do princípio de que existem diferentes formas de funcionamento cerebral, todas legítimas e parte da diversidade humana. Nesse contexto, o autismo não deve ser visto como algo a ser “corrigido”, mas compreendido em sua singularidade. Cada pessoa autista possui características próprias, com habilidades e desafios únicos. Evitar generalizações é essencial para promover um olhar mais humano, respeitoso e individualizado.
Um olhar sobre o autismo
Atualmente, o autismo é compreendido de forma multidimensional e não mais como uma escala de “leve a grave”. As diferenças podem se manifestar em áreas como comunicação, interação social, flexibilidade comportamental, funções executivas e processamento sensorial. Essa visão amplia a compreensão sobre o indivíduo e reforça a importância de estratégias personalizadas, que considerem as necessidades específicas de cada pessoa.
De acordo com a coordenadora de Análise do Comportamento Aplicada do Espaço Terapêutico da Unimed Noroeste/RS, psicóloga Maria Vitória Carvalho Amorim, “a comunicação no autismo pode variar bastante. Algumas pessoas utilizam a fala de forma funcional, mas enfrentam dificuldades nas interações sociais. Outras podem apresentar comprometimento tanto na fala quanto nas questões sociais, o que é bem comum nos casos de autismo. Devemos entender que a comunicação, vai além da fala, o comunicar podem ser gestos ou ações, uso de imagens, escrita, e até mesmo o uso de ferramentas de tecnologia como a comunicação aumentativa alternativa, como opção para apoiar a fala funcional”, explica.
A profissional ressalta ainda que a interação social não depende apenas da pessoa autista, mas de como o ambiente apoia essas relações. “Diferenças nas formas de comunicação não significam ausência de vínculo, significa poder respeitar e compreender as particularidades e necessidades de cada um, respeitando suas limitações e exaltando suas potencialidades”, ressalta a profissional. Também é comum a presença de interesses intensos, preferência por rotinas e resistência a mudanças. Esses aspectos podem ser utilizados como aliados no processo de aprendizagem, desde que equilibrados com novas experiências.
Processamento sensorial e alimentação
Muitas pessoas com TEA apresentam diferenças no processamento sensorial, podendo ter maior sensibilidade a sons, luzes, texturas ou, ao contrário, menor percepção desses estímulos. Essas variações impactam diretamente o comportamento, o conforto e a participação em atividades do dia a dia. A alimentação também pode ser um desafio, especialmente devido à seletividade alimentar, que pode envolver preferências por textura, cor ou sabor. Nesses casos, estratégias como a introdução gradual de alimentos, a adaptação do ambiente e o respeito às limitações sensoriais são fundamentais.
O desenvolvimento de pessoas com autismo está diretamente relacionado ao engajamento nas atividades. Por isso, é importante criar experiências significativas, conectadas aos interesses da criança ou adolescente, e que estimulem sua participação ativa. Entre os recursos que podem auxiliar nesse processo estão as rotinas visuais, que aumentam a previsibilidade, as histórias sociais, que auxiliam na compreensão de situações do cotidiano, e as adaptações sensoriais, que promovem conforto e regulação.
Uso de telas no desenvolvimento de crianças e adolescentes com TEA
De acordo com a psicóloga Maria Vitória, o uso de telas faz parte da rotina atual, mas exige atenção, especialmente no contexto do autismo. Quando utilizado excessivamente, pode se tornar uma barreira para o desenvolvimento, devido ao alto volume de estímulos visuais e sonoros, muitas vezes sem contexto ou relevância para a aprendizagem. Além disso, o uso contínuo pode reduzir oportunidades de interação, prejudicar o desenvolvimento da linguagem, a regulação emocional e o fortalecimento de vínculos.
Para um uso mais saudável, é importante estabelecer limites de tempo, priorizar conteúdos educativos com narrativa e menor estímulo visual, além de participar ativamente desse momento, interagindo com a criança. Antecipar o momento de desligar a tela também ajuda a evitar frustrações e comportamentos de resistência.
Entre os desenhos indicados pelos profissionais estão: Bluey, 101 Dálmatas, A Pequena Sereia, Zé Coleta, Puffin Rock, Daniel Tigre, O Show da Luna!, Ursinho Pooh, O Pequeno Urso e O Rei Leão. Esses desenhos auxiliam na resolução emocional, relação respeitosa com os pais, modelagem de autorregulação, possuem ritmo lento, pausas naturais, tempo para absorção da informação, têm histórias lineares, conflitos claros, previsibilidade emocional, imaginação acolhedora e segurança emocional. Além disso, possuem linguagem rica e estruturada, que estimula a curiosidade e o raciocínio.
O papel do Espaço Terapêutico
No Espaço Terapêutico da Unimed Noroeste/RS, o atendimento é realizado de forma multidisciplinar, contemplando desde pacientes com diagnóstico de TEA até atendimentos convencionais. O cuidado envolve desde a avaliação inicial até a construção de um plano terapêutico individualizado, sempre respeitando as necessidades e observando o desenvolvimento de cada paciente. A equipe é composta por médico psiquiatra, pediatra e profissionais das áreas da psicologia, neuropsicopedagogia, psicopedagogia, fonoaudiologia, psicomotricidade, terapia ocupacional e enfermeiro. O trabalho integrado, com trocas constantes entre os profissionais, contribui para um cuidado mais completo e efetivo.
Compreender o autismo é dar espaço para cada indivíduo ser quem é, com respeito, acolhimento e oportunidades. Afinal, a inclusão de verdade se constrói com conhecimento, empatia e conexão. “Entendemos que a evolução do paciente não acontece somente na clínica, mas também no ambiente familiar e escolar. Por isso, realizamos treinamento parental e escolar, para que o indivíduo possa evoluir em todos os ambientes nos quais convive”, finaliza Maria Vitória Carvalho Amorim.

